Elvis Ao contrário do que pensam, o Rock n’ Roll não se originou com Elvis Presley. Antes dele, já se ouviam salmos nas igrejas evangélicas de negros que os cantavam com uma harmonia da música europeia, misturada com suas origens africanas, entoando o lamento de uma vida sofrida com a escravidão. Essa é uma das raízes mais fortes do rock mundial. Logo nos anos 1930, com o objetivo de cativar os fiéis através do agito corporal, inseriram instrumentos de sopro, guitarra e percussão aos cânticos das igrejas evangélicas. Com esse culto renovado, vieram outros novos estilos musicais, um deles foi o rock and reelin (balanço e cambaleio), tocado por moradores dos centros urbanos. No campo, com a inovação dos lavradores brancos, surgiu o denominado country ou hillibilly (caipira). Mas o Blues e o Jazz foram as presenças mais importantes nessa mistura de ritmos que é o rock. Mesmo com tudo expressando melancolia, sempre havia espaço para o sarcasmo e a ironia. Não há roqueiro que não reconheça isso, pois a origem do rock n’ roll adveio da música negra. Assim em 1951, o primeiro álbum de rock foi gravado pelo saxofonista e cantor Jackie Brexton, com o título de Rocket 88, levando em consideração as letras que absolviam a ideia do sexo e automóvel fixamente na cabeça dos primeiros amantes desse estilo de música. O que esse som trazia de novo era simples, ao invés do som meloso de Bing Crosby, cantor e ator mais popular dos Estados Unidos, nos anos 1930 e 1940. O rock propunha um novo universo aberto para a vida, com mais emoção e irreverência, transformando o folclore e o blues negro por meio da tecnologia das guitarras elétricas, colocando o antigo lamento rural no cenário facínora dos centros urbanos. Enfim, mais do que um simples ritmo, o rock foi a única resposta que os jovens dos anos 1950 encontraram para aquele momento segundo Paulo Sérgio do Carmo: “Surgido nos anos 50, o rock foi um grito musical capaz de ser veículo do descontentamento com um toque de irreverência, expressando as desesperanças, e se associando à delinquência juvenil. Ele já nasceu atrevido e abusado: o nome é originado da união de duas gírias, o rock (sacudir) e roll (rolar), com alusão aos movimentos sexuais. Fenômeno novo, o rock escandalizava os velhos.” (CARMO, 2003, p.30). Do lado dos negros ficavam os poderosos Ray Charles e Chuck Berry, e junto aos brancos, a nossa majestade Elvis Presley ao lado do “clock” rock de Bill Haley. Enquanto Charles, o gênio das mil e uma notas, entoava uma voz áspera e um balanço sensual em sua música, Chuck convidava a garotada a largar a escola, o trabalho, o exército e celebrava o amor apenas como curtição. Com esses professores, o menino branco americano, Elvis, aprendeu muito bem. Usando uma guitarra elétrica, um violão country, um topete enorme, ele subiu ao palco cantando uma canção maluca, rebolando e sacudindo com o assanhamento das melhores strip-teasers de Las Vegas, tornando-se assim um “rei”. Por fim, a América sonolenta dos anos 1950 com o seu “one, two, three o’ clock”, de Bill Haley, iniciou a contagem progressiva para o futuro da música pop e de toda uma geração. Enquanto isso, no Brasil… Campello O Brasil passava por mudanças nesse período. Getúlio Dornelles Vargas, através das sonhadas eleições democráticas, voltou ao poder depois de ter instalado o Estado Novo em 1937. Em 1950, criou a campanha “O petróleo é nosso” que um tempo depois resultaria na criação da Petrobrás. Em 1954, a intensa pressão política da oposição, inclusive no meio militar, somada às denúncias de corrupção e ao envolvimento de pessoas ligadas ao presidente na tentativa de assassinato do seu principal crítico, Carlos Lacerda, levou o presidente a uma saída um tanto radical. Em 24 de agosto, Getúlio Vargas cometeu suicídio. No rádio, as novelas predominavam. E a televisão estava começando a sua expansão no mercado, contratando grande parte dos profissionais das rádios. Segundo Renato Ortiz, a década de 1950: “(…) foi marcada por uma série de improvisações e de experimentação na área da programação que ainda buscava sua estrutura definitiva. (…). Numa sociedade de massa incipiente, a televisão opera, portanto, com duas lógicas, uma cultural, outra de mercado, mas como esta última não pode ainda consagrar a lógica comercial como prevalecente, cabe ao universo da chamada alta cultura desempenhar um papel importante na definição dos critérios de distinção social.” (2001, p.76). Enquanto isso, na música, Nora Ney iniciou a estadia do rock em nosso país, fazendo sua versão para Rock Around The Clock (em inglês). Betinho e seu conjunto apresentam o primeiro rock com guitarra elétrica, chamado “Enrolando o Rock”. Mas de uma forma especial, foi com a exibição do filme Balanço das Horas, novamente com a trilha sonora de Bill Haley, que o rock começou a se expandir no país provocando uma enorme confusão nos cinemas que levou o governador de São Paulo, Jânio Quadros, a emitir nota oficial com o seguinte conteúdo: “Determine à polícia deter, sumariamente, colocando em carro de preso, os que promoverem cenas semelhantes. Se forem menores, entregá-los ao honrado Juiz. Providencias drásticas”. (Gaspari, 2003). Assim o ritmo no Brasil começou a ter novas cores e ondas. O compositor Miguel Gustavo, com interpretação de Cauby Peixoto, gravou o primeiro som desse novo ritmo, só que desta vez na nossa linguagem, levando o nome de Rock and Roll em Copacabana. Os irmãos Campelo, vindos de Taubaté (Campinas), interior de São Paulo, Sérgio Murilo e Celly, gravaram músicas em inglês, chamadas Forgive-me/Handsome boy, que abriram definitivamente o caminho do disco, dos programas de rádio, televisão e shows.  CarlosEm outro momento, estrearam na televisão no programa Campeões de Disco, transmitido pela TV Tupi em 1958. Depois a Rede Record ofereceu uma grande chance para os irmãos de transmitirem seu próprio programa intitulado Celly e Tony em hi-fi, o qual apresentaram por dois anos. Porém o sucesso dos irmãos veio com a dispersão da dupla. Celly estourou, em 1959, com a versão nacional para Stupid Cupid (Estúpido Cúpido). No mesmo ano, participou do longa-metragem de Mazzaropi: Jeca Tatu. Durante a vida, gravou outros sucessos: Lacinhos Cor-de-Rosa, Billy, Banho de Lua, que lhe renderam inúmeros prêmios e troféus, inclusive no exterior, e lhe deram o título de Rainha do Rock Brasileiro. Tony Campelo gravou seis LPs pela Odeon, fazendo sucesso com as músicas Boogie do Bebê (versão de Fred Jorge), Pertinho do Mar (Sílvio Pereira de Araújo) e Canário (outra versão de Fred Jorge), gravada em dupla com Celly. O promissor rei, Roberto Carlos, deixava de se apresentar em festinhas e clubes para lançar seu primeiro compacto simples João e Maria/Fora do Tom. Pouco a pouco, aliás, as rádios foram acordando para o mulatinho americano. No final da década de 50, até mesmo a Nacional de São Paulo reservava um espaço para o rock’n’roll e demais excentricidades: o programa “Ritmos Para a Juventude”, apresentado por Antônio Aguilar. Outro proto-DJ, Carlos Imperial, pilotava “Clube do Rock” na Tupi e “Os Brotos Comandam” (na Guanabara). (DAPIEVE, 1995, p.13). Parte 2