Os dois 2 Em 2007, o renomado diretor Martin Scorsese foi premiado com o Oscar de Melhor Direção. O filme em questão, ainda conquistou o prêmio principal da noite, definindo como uma das melhores obras de sua carreira. Além de ter ganho os prêmios de Melhor Montagem e Melhor Roteiro Adaptado. Interessante saber que Os Infiltrados é a visão de Scorsese para a história contada no filme original Mou gaan dou dos diretores Wai Keung Lau e Alan Mak. A base da trama é sobre a vida de duas pessoas infiltradas, uma na polícia outra na máfia; e como elas se comportam em meio a sua tarefa. Mudando suas personalidades com dúvidas sobre o que realmente é certo e errado. Depois de assistir os dois filmes, é visível a qualidade da refilmagem sobre o original. Apesar da fonte ser respeitável, Scorsese melhorou em muitos aspectos, principalmente no desenvolvimento dos personagens. Mas o fato do filme oriental se focar numa linha moral diferente, ajuda a tornar as duas obras bem distintas em seu julgamento. Antes de começar a comparação, veja algumas imagens do original com a refilmagem com seus respectivos atores principais: Chefe 3 Cliente 3 Teto 3Obviamente Scorsese respeitou muitas cenas do original, as deixando idênticas em seu filme. Mas não impediu que William Monahan desenvolvesse melhor o roteiro do que a dupla Felix Chong e Alan Mak. Nunca desmerecendo os autores, pois sem eles não haveria a iniciativa em realizar a versão norte-americana. Enquanto o original destaca o personagem de Tony Leung, Yan, de carregar para sempre o sofrimento de todas as mortes que é indiretamente responsável, citando os ensinamentos de Buda sobre o Inferno Contínuo deste o começo até o final, como esta frase: “aquele que está no Inferno Contínuo nunca morre. A longevidade é uma grande punição no Inferno Contínuo”. Define a trama sobre culpa e sofrimento. Scorsese realiza um filme de gangster aos moldes do cinema Hollywoodiano, dotado de uma edição mais dinâmica equilibrando cenas violentas mais agudas com pontuais momentos emotivos. No original, cada morte vinha com uma música calma lembrando os momentos da vítima, na refilmagem é tudo bem seco e realista. Além do sexo e os diálogos de baixo calão serem frequentes, não é a toa que o personagem de Mark Wahlberg foi criado para o filme, a cada 10 palavras 8 são “fuck”. Apagando de vez o cinema poético dos chineses. Voltando a um argumento no início da análise comparativa, o desenvolvimento dos personagens é praticamente inexistente no original. No máximo é mostrado o sofrimento dos infiltrados e suas relações com os outros, mas nada muito profundo, fazendo o público não se importar com o destino deles. Tudo é muito jogado e mal explicado, acontecendo sem uma preparação prévia. Sem pedir licença já estamos vendo um esquema da polícia para pegar o bandido, depois o policial começa a gostar da psiquiatra. A tensão não é mantida por muito tempo.  Mas nem tudo é tragédia, além da ideia de pessoas viverem outras vidas ser ótima na questão de conceito de valores, algumas cenas se destacam pela sensibilidade dos roteiristas. Enquanto na refilmagem, DiCaprio avisa seu chefe por celular sobre a troca de mercadorias, o policial Yan usa o código Morse. Muito mais seguro e inteligente. A diferença mesmo, como disse, está na linha narrativa do filme. Os personagens de Scorsese são elaborados, suas histórias bem construídas, tudo se fecha perfeitamente e nos importamos e sofremos com eles. Até o triângulo amoroso entre a psiquiatra e os dois policias é melhor apresentado. Sabemos o que passa na vida de cada um, sofremos com suas angústias. O mafioso de Nicholson não é apenas um traficante como Hon Sam que não passa sensação de medo em momento algum. Frank tem poder. Não apenas mata quem te atrapalha, mas também tem influências com o FBI. Tudo no filme norte-americano é impactante, explosivo, agudo e ninguém viverá muito para sofrer no Inferno Contínuo. Conversa 3 Morte 1 3 Perseguição 3Para provar tudo que estou argumentando, o final mostra a intenção de cada filme. Felix Chong e Alan Mak, através dos ensinamentos de Buda, mantem o mafioso infiltrado a salvo para que possa sofrer em sua consciência. Diferente do roteiro de William Monahan que para encerrar com uma lição de moral, além de bater na tecla da metáfora sobre ratos, a violência prevalece com uma onda de mortes que leva praticamente todo o elenco principal. Mostrando que uma refilmagem não precisa ser apenas uma refilmagem. Duas histórias com a mesma base. Dois personagens que ao viver num mundo completamente diferente, começam a mudar sua percepção de valores e, no fim de tudo, só querem ter uma vida tranquila. Mas enquanto o cinema oriental direciona o destino de seu protagonista como um karma, o cinema norte-americano segue na linha dos filmes mafiosos como O Poderoso Chefão e Scarface, em que o único destino dos personagens em meio a tanta violência é a morte certa. As duas tramas mostram que o bem e o mal não são tão diferentes assim, e que tudo vale para conseguir o seu objetivo, até perder sua identidade.