SAM_1878 Mais uma viagem. Mais uma vez espero na rodoviária o ônibus. É madrugada. Pretendo chegar cedo em São Paulo. O curso de Cinema da Universidade do Tuiuti do Paraná (UTP) proporcionou aos alunos em seu calendário, um espaço para podermos prestigiar o evento. O hotel pago pela Universidade ficava um quarteirão da Avenida Paulista, perto da maioria dos cinemas participantes da mostra. Principalmente da sede. O táxi só foi necessário quando começou a chover. Pra variar. Por ser novato num evento desta importância, ainda estava despreparado, conseguindo apenas garantir dois ingressos pela internet antes da viagem. A confusa organização da mostra também ajudou. Chegando lá, tentando me localizar, consegui a proeza de garantir mais dois filmes na minha agenda, tirando outro que estava com a sessão lotada. Frustrante, queria muito assistir Habemus Papam, o cinema italiano sempre é cativante. Da próxima vez, irei mais preparado e com certeza o número de filmes assistidos na minha lista será maior. Em compensação sobrou tempo para visitar o MASP e outros locais interessantes em São Paulo. A 35ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo foi marcada pela morte de seu idealizador Leon Cakoff, mais uma vítima do câncer. Aos 63 anos, o crítico de cinema, criou a mostra em 1977 e, com certeza, deixa um legado cultural para a capital e os amantes da sétima arte. A mostra também teve a novidade de exibir apenas filmes inéditos em nosso país. Tendo um maior foco sobre as escolhas cinematográficas. Toda a realização gráfica ficou a cargo de Mauricio de Souza, que escolheu seu primeiro personagem, Piteco, para ser o símbolo do evento, evocando o fascínio do ser humano pela imagem deste os primórdios. Muitas homenagens ocorreram durante o evento, como os filmes remasterizados Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick e Táxi Driver, de Martin Scorsese. Entrevistas com atores, diretores, produtores, entre outros profissionais do meio, poderiam ser encontradas em diversos pontos. Porém, os meus dois dias em São Paulo, foram bem corridos, e os quatro filmes que irei falar agora, foram as surpresas que encontrei na mostra. Boas e más. O primeiro foi o italiano A Boca do Lobo, dirigido/roteirizado por Pietro Marcello, que conta a história não linear e documental, de um homem recém-saído da prisão e volta para a esposa, uma transexual tímida. Interessante ao assistir o cotidiano do protagonista Enzo (Vincenzo Motta), é retratado um lado da Itália que não aparece nas propagandas de turismo. Uma Itália triste, pobre, antiga, mas com habitantes sobreviventes de sua desgraça. A segunda escolha daquela tarde de sábado, foi um documentário sobre a indústria de cinema indiano titulado Bollywood: A Maior História De Amor De Todos Os Tempos. Bem interessante, pois o filme mostra tanto a bela ilusão criada pelo cinema com suas empolgantes coreografias ao mesmo tempo em que mostra a consciência dos envolvidos de que todo o trabalho feito é apenas um escape para o miserável povo indiano de classe baixa. E se você acha que não existe nada pior do que as novelas brasileiras, com suas previsibilidades e uma fuga total da realidade, é porque não conhece Bollywood. Onde a estrutura da história sempre é a mesma, o que muda são as músicas e as leis da física. Domingo, minhas escolhas foram melhores. Para fugir um pouco dos dramas e documentários, resolvi assistir um filme de ação norueguês chamado Headhunters. Um filme de gênero que demonstra ter aprendido muito com o cinema norte-americano. A trama é sobre um headhunter que rouba seus próprios clientes para manter seu status de vida alto para sua linda mulher. Tudo começa a complicar, quando num dos roubos, descobre ser alvo de um assassino profissional. A direção de Morten Tyldum é competente, nos prende do começo ao fim num ritmo que vai crescendo gradualmente. Mesmo tendo uma história bem amarrada, ela depende bastante em certos momentos de uma grande suspensão de descrença do público. Vale como um bom entretenimento. E para fechar a noite, Frango com Ameixas. Não era a hora da janta, este é o nome do belíssimo filme de Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud. O cinema francês dificilmente decepciona e com este não foi diferente. Dos quatro filmes, considero o melhor por sua história que equilibra romance, humor negro e a música numa perfeita harmonia que mesmo quando terminou a sessão, ainda sorria pelo filme. A vida do violinista Nasser (Mathieu Amalric) esperando sua morte é tão cativante que o público é fisgado para descobrir porque sua vida não faz mais sentido sem sua alma musical. Simplesmente delicioso. Fechando com chave de ouro minha visita em São Paulo e a participação na Mostra. E estarei pronto para as próximas.