Poster Obs: Este texto é uma breve análise que fiz para a disciplina de Semiótica na minha pós de Cinema, então não leia se ainda quiser surpresas em relação a obra. Todas as imagens a seguir (contando o trailer) são recomendadas para maiores de idade. O Cozinheiro, o Ladrão, sua Mulher e o Amante é um filme de Peter Greenaway realizado em 1989. Greenaway é conhecido por um estilo artístico inconfundível, já que o visual é muito importante em seus trabalhos, justificando seu amor pela pintura. Os cenários de seus filmes carregam significados dos mais diversos. Então podemos afirmar que Peter Greenaway simplesmente não filma uma cena, mas elabora toda uma estrutura híbrida que vai do teatro até a literatura. Neste texto, irei analisar o filme escolhido, destacando principalmente as cores usadas em cada cenário e a crítica relacionada ao instinto animal do ser humano. A história é de uma típica tragédia teatral, outra característica de Peter, pois seus filmes são grandes espetáculos retratados em película. Temos um restaurante, onde o dono Albert Spica (Michael Gambon) é um mafioso que administra o lugar conforme suas vaidades e ambições. O grande diferencial do lugar é o seu cozinheiro, Richard Borst (Richard Bohringer), responsável pelos deliciosos pratos franceses. Especialmente os preparados para a mulher de Spica, Georgina Spica (Helen Mirren), dona de um paladar mais refinado. O conflito começa a surgir quando Georgina conhece Michael (Alan Howard) no restaurante e os dois iniciam um caso, acobertado pelo cozinheiro. Toda a trama é desenvolvida em poucos cenários, porém não menos importantes. Cada lugar é representado por uma cor, tendo uma grande importância, pois até os figurinos dos personagens se adaptam ao ambiente. Veja abaixo em alguns frames, como a mesma faixa de Spica muda conforme o lugar que está: CozinhaBanheiroPara uma maior noção do propósito de Greenaway sobre as escolhas das cores, leia abaixo sua declaração na época do lançamento: “A cozinha é verde porque representa a floresta de onde vem todo o alimento; o restaurante é vermelho por ser onde toda a violência ocorre; o banheiro, onde os amantes fazem amor pela primeira vez, é como o paraíso, e como tal ele tinha de ser branco; tem uma breve sequência no hospital que é iluminada com amarelo porque para mim é a cor das crianças, dos ovos, dos recém-nascidos; e finalmente a cor da biblioteca que é ouro, representando ‘a época dourada do aprendizado’, o idílico tempo em que tudo no Jardim do Éden era maravilhoso” – Retirado do site Imagem em Movimento. Depois de uma base sobre o trabalho artístico de Greenaway, começarei uma análise semiótica do personagem Albert Spica e sua incessável fome pela comida e pelo poder. Spica seria um personagem encantador se não fosse desprezível. A complexidade de suas ações são movidas por um senso de valores próprio. É responsável pela maior parte dos diálogos, ditando totalmente o ritmo da trama. Tanto que Georgina e Michael só conversam depois de uma intervenção de Albert, com o propósito de humilhar a esposa. TrioAlém de ser o orador central, Spica é movido por seu apetite. Seja por comida, poder e, posteriormente, raiva. Essa escolha não é obviamente aleatória quando se trata de Peter Greenaway: "No mundo antigo, os romanos e os gregos sempre pensaram que a alma residia no abdômen; apenas os cristãos acreditavam que ela habitava o peito. As civilizações primitivas ensinaram que a barriga é o centro do corpo e sua própria gravidade, mas o cristianismo subverteu esse princípio ao considerar o coração como o âmago do homem"- Retirado do site Imagem em Movimento. Movido por seu estômago, Spica sempre exige de seus companheiros bons modos na hora de comer. Mas o mesmo não hesita em tratar de negócios quando em uma cena, manuseia talheres roubados e come com suas mãos, além de sempre falar de boca cheia e arrotar quando se satisfaz. Como um verdadeiro animal, o que Greenaway não cansa de comparar mostrando os cachorros fora do restaurante. Quando descobre a traição de sua mulher, Spica mostra que a boca também pode ser uma forma de tortura ou morte. Quando quer conseguir uma informação, obriga uma criança a comer botões e, na morte de Michael, faz o amante da mulher engolir um livro sobre a Revolução Francesa. O livro que Michael sempre lia no restaurante e Spica tinha retrucado que não se come palavras. Para o azar de Michael, o ladrão estava enganado: TorturaMorteA relação entre o ato de comer e Spica não termina em seus meios, mas, genialmente, em seu fim. Quando Georgina descobre a morte de Michael, ela pede ao cozinheiro que o cozinhe. Assim, Abert poderia cumprir sua promessa quando disse que iria matar e comer Michael quando encontrasse. A cena final não é para quem tem estômago fraco e, contrariando o ditado “a vingança é um prato que se come frio”, o prato de Spica estava bem assado: Final IIFinal IIIDepois de uma ótima refeição que é o filme O Cozinheiro, o Ladrão, sua Mulher e o Amante, nada melhor do que repetir o prato.