posterO inimigo agora é outro. José Padilha deixa em segundo plano os traficantes mortos pelo chão e escolhe para sofrer nas mãos de sua força tática a política. Na verdade, a crítica mostrada em Tropa de Elite 2 é muito mais um alerta para nossa sociedade. Sobre um sistema difícil de ser enfrentado, tendo sua base a corrupção, seja com os governantes ou com o jeitinho brasileiro pelas ruas. Os únicos que podem enfrenta-lo, são as próprias pessoas que o fortalecem com sua omissão diante de tantos escândalos e fatos. E coube ao Coronel Nascimento mostrar que é possível combate-lo. Sem precisar usar a violência. Através da própria política.

Quando assisti o primeiro, fiquei impressionado pelo belo trabalho realizado. Mostrando para as pessoas que o cinema brasileiro não é feito apenas de comédias românticas. Temos ótimos filmes em nossa história, o que falta é a população acreditar nos próximos e apoia-los. O que nossos vizinhos, os argentinos, já fazem por um bom tempo. Nos fazer pensar através do cinema. Ver uma realidade que insistimos em não ver. E Tropa 2 nos ajuda nesse exercício.
 
te2A ansiedade pela continuação foi algo natural e não desapontou pela sua espera. Ao contrário, veio para se tornar um dos melhores filmes brasileiros de toda história. Não apenas pelo sucesso de bilheteria, mas conseguindo juntar num roteiro complexo de Padilha e Bráulio Mantovani, entretenimento com uma ação de tirar o fôlego (não devendo nada a grandes produções americanas) e uma violenta crítica a inexistente segurança pública, além das jogadas políticas em troca de votos. Um filme obrigatório para qualquer brasileiro. E não adianta pedir para sair.
 
te3Tudo começa quando o ainda Capitão Nascimento (Wagner Moura, atuação digna de Oscar) é chamado para controlar uma rebelião no presídio de segurança máxima Bangu I. Porém, com os eventos acontecidos no local graças ao Capitão Matias (André Ramiro), a sua vida toma um rumo que jamais imaginou. Como uma forma de agradar a população em troca de votos, a base política do Rio, convida Nascimento para trabalhar na subsecretária de segurança. E dentro do seu novo cargo, ele transforma o BOPE numa máquina de guerra, acabando de vez com o tráfico de drogas. Mas como a guerra contra o sistema é maior, surgem as milícias. Sem a força dos traficantes, os policiais corruptos tomam conta das favelas. E quando Nascimento pensava em estar no caminho certo, se vê dentro de um ninho de ratos. Se não bastasse isso, tem que enfrentar seus próprios problemas como a relação complicada com seu filho.
 
A produção do filme está impecável. Fotografia, edição, trilha sonora, figurino, a equipe técnica realmente estava com a faca na caveira. E com essa estrutura, Padilha desenvolve seus argumentos de uma forma ácida e inteligente, para o mais passível público poder entender sua mensagem. Algo que muita gente teve dificuldade com o primeiro filme. A ação desta vez deu uma maneirada. Os bordões estão ali, agora só faltam cair no gosto popular. Muitos dos personagens apresentados vão ser facilmente identificados com várias figuras da nossa realidade. Mesmo com o aviso no começo diga que seja só coincidência, afirmando que trata-se de uma ficção. Uma ficção que serve como um tiro na cara de muita gente que vende seu voto. E contribui direta ou indiretamente para o aumento do buraco que nosso país está descendo.
 
teGenial, perturbador, crítico e divertido, Tropa de Elite 2 é prato cheio para muitas rodas de discussões pelos bares afora. Não só bares, mas faculdades, favelas, condomínios, qualquer um inserido nesse sistema. Pois como o Coronel Nascimento avisa: “o sistema é foda, parceiro”. Nós sabemos quem são os culpados. Só falta esses culpados, se importarem mais com seu país. Conhecendo melhor seus representantes políticos. E eliminando o inimigo com seus votos.

Tropa de Elite 2
Brasil , 2010 – 116 min
Ação / Drama Direção:
José Padilha Roteiro:
José Padilha, Bráulio Mantovani Elenco:
Wagner Moura, André Ramiro, Maria Ribeiro, Pedro Van Held, Irandhir Santos, Seu Jorge, Milhem Cortaz, Fernanda Machado, Tainá Müller Foda