Pedro Almodóvar é eternizado por situações casuais e cotidianas transformadas em grandes e diferentes cenas, retratadas por atrizes e cores exageradas. O fato se desalinha em obras como "Abraços Partidos", no qual o diretor se mostra bem mais maduro e independente. Nessa fase inicialmente citada, aonde o que predomina em seus longas é o inusitado, jamais pode-se deixar de lado um dos filmes mais marcantes nesse quesito, Kika.
 
Kika é uma maquiadora chamada para "dar cor" a um rapaz morto, no meio do procedimento descobre que o mesmo está vivo, e desse modo se casam e vivem juntos alguns anos. Ramón é um rapaz perturbado pelo passado e pelo suicídio de sua mãe, que fora presenciado por seu padastro Nicholas, um grande escritor norte americano. No processo de indas e vindas do passado, várias situações se cruzam com personagens como Paul Bazzo, o maníaco sexual e ex-ator de filmes pornográficos, Juana, a empregada de Kika, e Andrea, a apresentadora de um programa sanguinário.

O voyeurismo é o ponto chave que segue tudo. É a insanidade pelo anonimato (ou não), pelo segredo ao ver a vida das pessoas, que já na década de 90 Almodóvar retratava, porém de modo maior em "Lo Peor del Dia", um programa dentro do filme, apresentado por Andrea Caracortada, interpretada pela grande Victoria Abril, uma ex-psicóloga viciada em exibir para pessoas na televisão, o bizarro, o macabro, e as situações que não diferentemente vemos hoje em dia em programas policiais. Andrea no entando é muito mais caricata e performática que alguns "jornalistas de sangue frio" que muito bem conhecemos, ela utiliza modelos assinados pelo grande estilista J. P. Gaultier, usa de sarcasmo ao anunciar o patrocinador e vive a espreita farejando o sórdido em cada local com uma roupa especialmente preparada para embutir uma câmera.
 
É nas cenas mais fáceis e simples que se vê a fraqueza de cada uma das personagens, retratando um mundo antigo e não diferente do atual, aonde apenas os olhos de um roteirista perspicaz poderia retratar de forma envolvente durante todo o processo que leva o filme até um desfecho extremamente surpreendente.
 
Kika não é para todos, para assisti-lo necessita-se ser preparado ao estilo espanhol do diretor, estar ciente do quão estranho pode ser o cinema europeu quando quer, e mostrar que tudo o que vemos com relação a interpretações pode ir muito além de Hollywood. É um filme que personifica hoje a sede de pessoas em programas como reality shows, e jornalismos que se mostram no intuito de desmarcarar o crime, mas que acabam fazendo-o apenas de forma propagativa. Andrea Caracortada é diferente dos apresentadores de tais programas que acreditam estar fazendo a coisa certa, ela é sádica e sabe que tudo o que faz é apenas para impressionar e chocar. Kika é como os outros, e acaba sendo uma das vítimas da massa excêntrica que corre o mundo a sua volta, e mostra o quanto as pessoas podem ser complacentes não intencionais da gama de atitudes desagráveis de outras.
 
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