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A banda toca músicas urbanas e uma das maiores legiões a segue. Tratam-se de canções sobre tudo que acontece nas cidades. Segredos ou não de Brasília. Uma banda que soube expressar todas as angústias e medos que os jovens brasileiros viviam naquela época. Letras atemporais que de jovem para jovem (para aqueles também que continuam jovens no coração) nos fazem refletir sobre o amor, o ódio, a sociedade, o preconceito, a ilusão, a solidão e muitos outros temas que fazem parte de um ser humano. Justamente, por isso, são atraentes.

 
Quatro garotos que antes só se conheciam através de outros garotos, recebem uma proposta de Renato Russo para formar uma banda. As idéias eram compreendidas pelo grupo que se propuseram a fazer da Legião Urbana a melhor banda de rock do Brasil, o quarteto estava formado:
  • Dado Villa-Lobos, nascido na Bélgica a 29 de junho de 1965, mas naturalizado como brasileiro.
  • Renato Rocha, nascido no Rio, 1961, a 27 de maio
  • Renato Russo, nascido no Rio a 27 de março de 1960, mas considerado brasiliense.
  • Marcelo Bonfá, nascido em dia 30 de janeiro de 1965.
Em 1982, nasce a Legião Urbana de Brasília para o Brasil. No começo, depois de tentar com outros integrantes, Renato havia chamado apenas Dado e Marcelo, mas por um estranho motivo ainda que haja diferentes versões, Renato corta os próprios pulsos e, inutilizado para tocar baixo, chama Renato Rocha. Um dos motivos é o fato de que ele gostava de experimentar as coisas, outro seria uma briga que tivera com sua mãe. Com essa atitude, ganha mais liberdade na banda e decide apenas se dedicar ao vocal.
 
Dado Villa-Lobos não sabia tocar muito bem. Então, Renato ensinou-lhe algumas músicas da banda na guitarra para ter o primeiro repertório para os shows. Mas o sucesso estava para chegar e através de outra importante banda da época: Paralamas do Sucesso. Eles haviam gravado a música Química, de Renato Russo, e o produtor perguntou se aquela música era deles, como resposta Herbet soltou a histórica frase: “Essa música é de um cara que eu sempre quis ser”.
 
38 E depois de um convite dos Paralamas, a Legião Urbana abriu o show no Circo Voador, Rio de Janeiro, para entrar de vez para a história. Daquele show, receberam um convite da EMI-Odeon para gravar uma demo.
 
E como gostaram do que ouviram decidiram arriscar com a banda. Não foi fácil, pois os integrantes não concordavam com a opinião dos produtores e acabaram brigando, dois se afastaram, até Mayrton Bahia, depois de uma discussão, decidiu desistir, porém voltou atrás porque acreditava nos garotos, sobretudo, em Renato.
 
O primeiro álbum era praticamente o repertório que criaram para os shows. Sem todo aquele peso do punk (o que acabou desagradando grupo), era intitulado apenas por Legião Urbana. Trazia grandes músicas que se tornariam clássicos como: Geração Coca-Cola, Ainda é Cedo e a primeira música de trabalho Será que estourou nas rádios. Em 1985, os brasileiros conheceram a poderosa voz de Renato Russo e sua poesia. Nesse período, Renato assume sua homossexualidade para a mãe. Entre choros, a mãe aceita a decisão que futuramente ficaria clara em suas músicas contra o preconceito. Juninho era um rapaz que geralmente não escondia seus problemas. Ou nas letras ou nas declarações sempre deixou claro que fazia e pensava.
 
Com o sucesso de vendas do álbum Legião Urbana, em 1986, Renato quis inovar. Não iria fazer o mesmo trabalho duas vezes. E depois de muito esforço, gravou o maior sucesso da banda: Dois. Um Cd que era para ser duplo, chamado Mitologia e Intuição, mas acabou ficando simples por medo da gravadora. Emplacado pelas antológicas Eduardo e Mônica, Tempo Perdido, Índios e a radiofônica Quase Sem Querer, bateu recordes de venda, e é o álbum mais vendido da banda até hoje.
 
 
Renato consegue concretizar o seu sonho: ser um astro do rock. Porém não era uma das melhores pessoas para isso. Não soube lidar com sucesso, alcoólatra assumido começou a beber cada vez mais. Sem falar no vício nas drogas como a popular maconha dos tempos de colégio, até experimentar a cocaína. A cada show que realizava, os fãs aumentavam e ficavam mais fanáticos. Era como uma religião. Uma legião com seus legionários.
 
O marco mais trágico estava ainda por vir. O divisor de águas da banda estava chegando. O clima das recentes apresentações não foi tão pacífico. Em São Paulo, Marcelo Bonfá foi atingido por uma garrafa, mas Brasília era a promessa de um show histórico, palco onde tudo começou. Durante a turnê do terceiro álbum, Que país é esse, esta cidade se encontrava em êxtase. O novo trabalho era na verdade uma gravação dos antigos sucessos da época do Aborto Elétrico. Com muita pressão da gravadora e sem tempo para novas músicas, Renato decidiu rever o passado. Apenas duas músicas foram compostas: Angra dos Reis e Mais do Mesmo.
 
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“Quero ouvir uma canção de amor
Que fale da minha situação
De quem deixou a segurança de seu mundo
Por amor”
O Mundo Anda Tão Complicado – Legião Urbana
 
O evento foi planejado por cinco meses, mesmo assim a segurança era falha e aconteceram tumultos já antes da apresentação. Renato Russo queria que fosse o show da sua vida, o melhor show da Legião Urbana: Esse vai ser o show da minha vida, por isso quero que embrulhe pra presente, que nem Bon Jovi” (MARCELO, p. 350, 2009). Uma superprodução para uma noite de horror.
 
Todos tinham uma impressão ruim daquela noite, o estádio lotado, muitas pessoas empurrando umas as outras, muita gritaria, era um caldeirão pronto para explodir bem perto do palco, por exigência do próprio vocalista que queria o público perto da banda. Mesmo com tudo indicando o pior, Legião Urbana entra no palco para o show da sua vida abrindo com a música Que país é esse:
 
“Terceiro mundo, se for
Piada no exterior
Mas o Brasil vai ficar rico
Vamos faturar um milhão
Quando vendermos todas as almas
Dos nossos índios num leilão”
 
Renato mostrava estar bem solto e feliz. Em alguns momentos percebia certo tumulto entre as pessoas e parava para dar-lhes broncas. E não foi a única vez. Um fã se agarrou em seu pescoço com força suficiente para matá-lo. Os seguranças intervieram e quando foram levar o cara embora, Renato mandou soltá-lo, porém as confusões não pararam e o vocalista já estava de saco cheio com aquelas atitudes infantis dos brasilenses. E mais uma vez distribuiu duras broncas nas pessoas para poder continuar o planejado. Depois da música Será, a banda se retira em menos de uma hora de show. Quando perguntaram se eles iriam voltar, responde que punk era isso mesmo.
 
Na verdade, estava perturbado e furioso com tudo de errado que aconteceu. E o público surpreso pela retirada, esperou por muitos minutos pelo regresso da banda, mas quando percebeu que o show havia acabado se revoltou e as pessoas passaram a agir como animais atrás da caça. E a caça era a banda, conforme Marcelo (autor do livro: O Filho da Revolução):
 
Garrafas e sapatos voam e despencam no palco. Os mais irados arrancam as cercas metálicas que protegem o tablado reservado aos músicos, e avançam nos equipamentos. Com golpes de cassetete, a polícia os dispersa. Outros botam fogo nas lonas usadas para proteger o gramado. A fumaça sobe. Os seguranças tiram as camisas de identificação e se dispersam. (…). Do lado de fora, o distúrbio recomeça, com apedrejamento de ônibus. Pedaços de vidro, cortes profundos, sangue no asfalto. A emergência dos hospitais próximos fica repleta: quatrocentos atendimentos médicos, quase duzentas pessoas feridas, a maioria com suspeita de fratura ou sangramentos provocados por objetos cortantes. Na delegacia da Asa Norte, o movimento também não pára de aumentar ao longo da madrugada: já são 58 presos, sem contar a apreensão de 150 tubos de loló e um revólver calibre 22. (MARCELO, p. 362, 2009).
 
Foram meses de perseguição contra a banda. Discos foram queimados em Brasília, a fobia de Renato com o público aumentou, aqueles garotos agora estavam sentindo o que era ser uma verdadeira banda de rock.
 
 
A partir desse momento, a Legião Urbana mudou. Tanto na formação, quanto na postura. Renato Rocha, durante a gravação do álbum As Quatro Estações, desentende-se com Marcelo Bonfá e acaba saindo. Renato Russo e Dado Villa-Lobos revesam-se no baixo na hora de gravar as novas músicas: “Pais e Filhos”, “Há Tempos”, “Monte Castelo”, “Meninos e Meninas” e mais outros sucessos. Dos sucessos desse período o mais celebrado entre os fãs é “As Quatro Estações”. Essa música revela uma mudança no som da banda. Quando tudo era mais agressivo, com refrões fortes, sempre tendo a bateria como principal motor das músicas, mostrando ao Brasil letras críticas sobre vários assuntos. A poesia de Renato começa a ganhar mais destaque do que nunca, suas canções tornam-se inesquecíveis. Não que outros trabalhos não tenham isso, mas, em 1989, é evidente o novo rumo. Esse ano foi o que marcou Renato.
 
14 O quinto álbum não poderia ter um nome tão simples como V. Em plena crise econômica, causada pelo plano Collor, Renato ganha uma surpresa desagradável. Como Cazuza, ele também havia contraído o vírus da AIDS, porém, diferente do amigo, nunca assumiu a doença publicamente.
 
Mas nem tudo eram pedras no caminho do músico, nesse mesmo tempo, descobre que tem um filho (chamado com nome de santo: Giuliano) com uma fã carioca. E nesse contexto, surgem clássicos como: “Metal Contra as Nuvens” (a música mais longa da banda), “Vento no Litoral”, “Teatro dos Vampiros”, entre outros.
 
Em 1993, a banda lança seu sexto álbum intitulado O Descobrimento do Brasil. Em seu repertório, temos a fantástica e antológica “Perfeição” e “Giz” que é a música preferida de Renato Russo. O cantor se mostra otimista com a vida, com sua recuperação da dependência química. Todo esforço realizado por seu filho. Renato agora era pai, tinha responsabilidades maiores para não se entregar às drogas.
O fim estava chegando. Renato cansou. Não aguentava mais a vida que levava. Não queria mais continuar com a Legião, nem fazer shows, gravar Cds. A forte depressão começava a se manifestar sobre ele. Mesmo experimentando outros ares, gravando discos solos como o Cd italiano, decidiu voltar ao estúdio e trabalhar no novo e último álbum da banda: A Tempestade.
 
“Quando tudo está perdido
Sempre existe um caminho
Quando tudo está perdido
Sempre existe uma luz…
Mas não me diga isso”
Via Láctea – Legião Urbana
 
Nos últimos três meses de sua vida, isolou-se em seu apartamento do Rio, gravou praticamente no primeiro take quase todas as músicas do novo álbum, ou seja, não voltou mais ao estúdio para gravar algumas partes que poderiam ter ficado ruins. E realmente não houve isso. A Tempestade é o trabalho mais poético, profundo, sincero e pessoal da Legião Urbana. Digamos que é um adeus de Renato Russo. Um garoto chamado Juninho, que tinha ideias para mudar o mundo e com muita energia moldou o pensamento e a maneira de viver de muitos jovens brasileiros. E se foi como um homem que queria mostrar o verdadeiro significado do amor, da amizade e da solidão. Em uma entrevista, quando lhe foi perguntado sobre o que mais amava e do que se arrependia, respondeu: “De nada… Só dos meus amigos, da minha família e de onde há amor e perdão. Eu acho que nós estamos nos destruindo. É uma pena: a gente realmente achava que iria mudar o mundo”. (MARCELO, 2009, 390).
 
 
Em 11 de Outubro de 1996, morreO Trovador Solitário”, pesando apenas 45 quilos. Os jornais revelam para sua mãe que o filho havia falecido por complicações da AIDS. Seu pai, Renato Manfredini, morou na casa do filho nos últimos dias de vida. Renato queria ter certeza que o pai o amava e o aceitava por ser o que era.
 
A sua morte teve um impacto enorme nos fãs e em todas as pessoas que o admiravam de alguma maneira. O que não falta atualmente são homenagens em formas de Cds, livros, documentários, filmes (futuramente lançados), tributos. O Brasil ainda sente falta de um ídolo como ele. Melhor dizendo, o Brasil sente falta de Renato Russo. Mas a Legião Urbana, mesmo encerrada onze dias depois de sua morte, sempre viverá no coração de qualquer um que se considere da “geração coca-cola”.