13Brasília antes do Aborto Elétrico era considerada como o local do tédio. Tudo era difícil na cidade. O jovem tinha que criar sua própria diversão. O hábito mais comum dos jovens brasilienses era descer e ficar conversando com os amigos sobre tudo que vinha na cabeça. Renato estava obstinado a formar uma banda de rock, porém faltava encontrar as pessoas certas. Muitos colegas curtiam o estilo, porém era difícil encontrar alguém punk, alguém que entendia o que era ser punk.

A primeira formação da lendária banda da capital brasileira estava mais próxima do que parecia e, numa festa, Renato se anima quando observa um garoto alto, magro, loiro com um traje totalmente rebelde. André Pretorious era como se chamava o futuro grande amigo. E sem pensar muito, a história começou com um simples diálogo:
 
— Hey man, do you like Sex Pistols?
— Sex Pistols?! Jóia!
— Pôxa, cara, eu toco baixo.
— Eu toco guitarra!
— Jóia! Vamos fazer uma banda?
 

E por forças do destino (Renato acreditava nisso) ou por pura coincidência, os dois conheciam Felipe Lemos que, logo depois, se tornaria o baterista. O trio estava formado, assim começaram os ensaios.
 
 
Brasília começa, então, a sair do seu tédio. A garotada descobre uma nova forma de se entreter. O rock chega para ficar e balançar as estruturas e pensamentos da cidade. Embaixo do bloco A, na Colina em 1979, Renato, Fê e André discutem sobre o nome da banda, Felipe Lemos teve a maluca idéia de Tijolo Elétrico. E depois de ouvir a sugestão, todos olharam estranhados e, de repente, André salta do banco e fala que o nome deveria ser Aborto Elétrico. E a aceitação foi imediata.
 
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“A humanidade é desumana
Mas ainda temos chance,
O sol nasce pra todos,
Só não sabe quem não quer”
Quando o Sol Bater na Janela do teu Quarto – Legião Urbana
 
O grupo tocava nas calçadas, barzinhos, porões, onde estivesse, aos poucos, ia juntando fãs e curiosos. A Colina era o principal ponto de encontro dos jovens, pois por ser bem afastado do centro e um campus universitário, a polícia não aparecia por lá e assim eles se sentiam mais seguros. Os jovens se reuniam para tomar vinho barato, tocando violão, sem medo de serem repreendidos.
 
A polícia sempre esteve presente na vida de Renato, a instituição era usada pelo governo como seu braço para a censura e repressão contra os revoltosos. O cantor, como nunca foi santo, também provocava os policiais fazendo perguntas que zombavam da precariedade de conhecimento dos uniformizados. E foi essa a razão por ter escrito a pulsante Veraneio Vascaína:
 
“Porque pobre quando nasce com instinto assassino
Sabe o que vai ser quando crescer desde menino:
Ladrão pra roubar ou marginal pra matar.
Papai eu quero ser policial quando eu crescer”
 
O primeiro grande show foi no centro comercial Gilberto Salomão, em 1980. Pretorious chegou a cortar seu dedo de tanto tocar. Porém caiu uma pedra no caminho do Aborto. André completou 18 anos e foi para África servir ao exército. Sem guitarrista, Felipe indica seu irmão, Flávio, porém o garoto não sabia tocar instrumento algum. Então, Renato o ensina a tocar baixo e assume a guitarra. Em 1980, o novo trio muda os ensaios que, antes, eram na Colina, para a casa dos Lemos.
 
 
O local dos ensaios se chamava “O Cafofo”, nome dado pelo tamanho do quarto que não tinha nada além das paredes. O barulho era tanto que para acompanhar as músicas, o público recebia folhetos com as letras. Deve-se lembrar que os garotos não sabiam tanto sobre a afinação dos aparelhos. Foi nessa época que Renato se descobriu compositor.
 
33 Dono de uma genialidade incomum (mesmo nunca admitindo isso) compunha músicas só de ouvir a base dos instrumentos ou até mesmo em plena apresentação para o público. Improvisação era uma das suas especialidades. Outra característica forte era a sua posição como líder de uma geração nova, acreditava que com o rock poderia mudar os pensamentos dos jovens e sempre sonhava em formar a melhor banda do mundo. Fazendo o rock se tornar popular na terra da discoteca.
 
Renato andava antenado com tudo à sua volta. A parede de seu quarto era coberta por recortes de jornal dos mais variados temas como música, cinema, livros, entre outras coisas que poderiam interessá-lo. E o Aborto Elétrico começa a ganhar mais fãs e admiradores. Entre eles, os jovens: Dado Villa-Lobos e Dinho Ouro Preto, que frequentavam os mesmos lugares em que a banda tocava. O ano do show mais sério, na FUNARTE, foi 1981. Nesse espaço, decidiu-se a verdadeira harmonia das músicas como Geração Coca-Cola, Que País é Esse, Fátima, Música Urbana, que antes variavam muito por ainda estarem em fase de criação.
 
Nem tudo andava as mil maravilhas e o fim prematuro da banda estava chegando. No dia da morte de John Lennon, o Aborto Elétrico tinha um show para fazer e Renato só apareceu bem na hora dizendo que estava meditando pela alma de Lennon. Felipe se enche de fúria e percebendo que Renato começava a errar nas letras, cansa e manda a baqueta da bateria bem nas costas do vocalista. Renato olha para trás e vai embora. Arrependido, Felipe vai até a casa dos Manfredini se desculpar, porém o que ouve de Renato é que a banda acabou.
 
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Felipe e Flávio decidem levar a banda sozinha e chamam o irmão de Dinho Ouro Preto, Ico, para fazer parte da formação. Renato começa a tomar um novo rumo na sua vida e na carreira musical. Decide se lançar como cantor solo com o nome de Trovador Solitário. Abrindo shows da Plebe Rude, só com um violão, cantava músicas como Eduardo e Mônica, deixando o público indignado. O pessoal queria rock e aquele Bob Dylan brasiliense não os agradavam. Apesar das vaias, o Trovador Solitário consegue levar bem suas apresentações e, aos poucos, vai conquistando as pessoas. Mas o ciclo no Aborto Elétrico não havia fechado. No ano de 1981, a banda iria se apresentar no Centro Olímpico e, na hora do show, Ico Ouro Preto some. Felipe não sabia o que fazer e vendo Renato chama-o para tocar com eles. Depois de aceitar, o trio faz a melhor apresentação da banda, notando que o público canta junto Que País é Esse e vai à loucura. A porta se fecha com chave de ouro. O Trovador Solitário começa a constituir sua legião de seguidores.
 
“Nosso dia vai chegar,
Teremos nossa vez.
Não é pedir demais:
Quero justiça, quero trabalhar em paz.
Não é muito o que lhe peço,
Eu quero um trabalho honesto,
Em vez de escravidão”
Fábrica – Legião Urbana