Adaptação. No cinema, é quando usamos uma estória de outra linguagem e tiramos o conflito principal para, de uma forma dinâmica e concisa, repetir a mensagem de maneira cinematográfica. Foi o que aconteceu com o segundo filme do diretor Ron Howard com o professor Robert Langdon (personagem criado por Dan Brown nos romances Anjos e Demônios, Código da Vinci e O Símbolo Perdido). Porém os roteiristas David Koepp e Akiva Goldsman, adaptaram da pior maneira possível.
É óbvio que o livro, na maioria dos casos, será melhor do que o filme, pois nos permite a chance de viver a estória nos mínimos detalhes. Vivemos e acompanhamos os personagens página por página até seu desfecho final. E temos ainda a oportunidade de folhar capítulos que não foram entendidos muito bem. E o que se espera de uma adaptação é, acima de tudo, o respeito pela obra. Não importa se há mudanças, pois a linguagem do cinema precisa e é necessário ter mais ritmo para agradar o grande público. Algo que não sou favorável quando o interesse no sucesso das bilheterias atropela a importância do conteúdo. Batman: O Cavaleiro das Trevas não houve cenas com sangue (mesmo quando o Coringa é espancado ou envia uma caneta na garganta do capanga) para não pegar censura alta, simplesmente patético. Ainda bem que não prejudicou.

No primeiro, Ron preferiu focar nas discussões sobre Maria Madalena, tornando a estória monótona e cansativa, porém foi fiel o que estava no livro. Depois de muitas críticas negativas, Anjos e Demônios realiza o contrário. Destaca as cenas de perseguição e um ritmo frenético tornando a estória apressada e com alguns momentos sem nexo. Quando terminei de ler o livro, vi que era um grande roteiro para o cinema. Cenas fantásticas, diálogos poderosos, um suspense integrante, personagens cativantes, tudo que há de bom numa obra de Dan Brown. Um autor que sabe escrever comercialmente como ninguém. Comercial, porém com muita carga histórica. Na nova aventura de Robert Langdon (Tom Hanks), é chamado para descobrir e ajudar o Vaticano a enfrentar seu maior e mais antigo inimigo: os Illuminati. A ordem cronológica também é modificada. Os atuais eventos são depois do Código da Vinci, enquanto no livro, são antes. Para quem não conhece a obra escrita, será um ótimo entretenimento. Como filme em si, esquecendo a adaptação, Anjos e Demônios peca pela sua aceleração desenfreada. Um caça ao tesouro que não permite uma reflexão sobre o assunto. Quando acaba, fica a sensação de incertezas. O que realmente aconteceu? Está faltando algo? E mais uma vez cai na questão da adaptação.

Recentemente tivemos o novo filme do Harry Potter. Conseguiu perfeitamente passar o que havia no livro. Focando em uma determinada linha da estória. Mas Anjos e Demônios muda demais. Até agora não entendo a decisão de trocar nomes de personagens e a eliminação de Maximiliam Kohler no filme. Esse personagem é importantíssimo no livro e com ele Dan Brown deu uma das maiores lições de como a religião obsessiva pode ser prejudicial. Como tiveram a coragem deixá-lo de fora? Não tiveram o respeito.

Não queria nem comentar sobre fatos importantes que foram totalmente ignorados no roteiro e cenas de pura tensão transformadas em momentos da Sessão da Tarde. Pensando na bilheteria, os produtores conseguiram acabar com uma das melhores estórias de livro para o cinema. Com a intenção de agradar o público, muita coisa foi amenizada e modificada para um final muito mais feliz e conservador.
Agora só nos resta rezar para acertarem com O Símbolo Perdido.


Anjos e Demônios (Angels & Demons) EUA, 2009 – 138 min – Suspense
Direção: Ron Howard
Roteiro: David Koepp, Akiva Goldsman, Dan Brown (livro)
Elenco: Tom Hanks, Ewan McGregor, Ayelet Zurer, Stellan Skarsgård, Nikolaj Lie Kaas, Pierfrancesco Favino

Nota: 4