São poucos os filmes que são muito mais do que uma reflexão ou entretenimento, são verdadeiras obras primas, ou seja, tão verdadeiros consigo mesmo que faço questão de levar para a vida toda. Quando terminei de assistir, escrevi a seguinte frase no meu Twitter: "A Garota Ideal. Deste O Lutador que não assistia um filme tão belo, tão verdadeiro." E olha que assisto muitos (se fosse contar no ano, passaria de 100), quando tenho tempo então, corro o risco de uma overdose. E o "novo" trabalho do diretor Craig Gillespie foi de tamanha genialidade e sinceridade, que não consegui desviar meu olhar e pensamentos para qualquer outra coisa. Lançado em 2007 e chegando no Brasil apenas agora, A Garota Ideal é a comédia mais ilusória de um drama perfeito.

Em muitos momentos você pode chorar de tanto rir, mas o que se deve pensar antes é a seguinte situação: Lars (Ryan Gosling) é um homem de 27 anos e solitário. Um dia avisa para seu irmão mais velho que irá apresentar a sua nova namorada e, para a surpresa de todos, é uma boneca inflável super moderna. Qual seria a sua reação ao ver a cena? Rir? E se fosse o seu irmão? Isso mesmo, pimenta nos olhos dos outros é refresco. Por isso, primeiramente, não podemos classificar como sendo uma comédia, no máximo um ótimo humor negro de um roteiro brilhante de Nancy Oliver.

Não se sinta mal por rir, eu mesmo não consegui me segurar. É um filme que te permite saborear todos os momentos como um delicioso doce. Lars é tão carismático que você começa a se importar com o caso e se emocionar com a história. Uma história de um homem que vive sozinho na garagem de sua casa e do irmão mais velho Gus (Paul Schneider). Primeiro indício do seu sério problema de socialização. Sempre acompanhado da manta que sua mãe bordou durante a gravidez. Uma lembrança de sofrimento por causa de seu nascimento, pois a mãe morreu no parto e o pai nunca conseguiu demostrar todo o amor que sentia por ele. Também pode ser considerado como uma mostra da falta que ela faz em sua vida. Em toda essa solidão, não consegue se relacionar com outras pessoas, mesmo quando a sua colega de trabalho gosta dele. Até que um dia, apresenta a nova namorada ao seu irmão e a esposa (Emily Mortimer, atuação fantástica). Uma boneca comprada pela internet para ser a sua companheira.

Lars acredira que Bianca (Boneca inflável) é uma mulher de verdade e a única opção para curá-lo da ilusão será participando dela. E agora entramos no ponto forte do roteiro, e como eu avisei, não é o humor. Toda a população da pequena cidade se dispõe a ajudar Lars. Começa a tratar Bianca como se fosse real, mostrando o lado bom do ser humano. Como em uma cena o padre fala no sermão: "Como Jesus nos ensinou: Amai-vos uns aos outros". Não há frase mais oportuna para resumir o filme. Independendo da escolha religiosa de cada um, não há como negar que o amor é a base de tudo. E quando nos importamos com alguém, só queremos o bem dessa pessoa. Seria útopico demais em pensar em um mundo civilizado, até porque a nossa natureza como ser humano é de uma tamanha complexidade que não podemos julgar ninguém sem, pelo menos, conhecermos a nós mesmos. Outro ponto interessante, e que possa passar despercebido pelo público, é a relação de Lars com Bianca. Principalmente quando Lars é consultado pela médica da família, percebe-se que ele precisava de alguém em que pudesse dividir todo o seu sofrimento, em que pudesse conversar sem ter medo de não ser compreendido. Bianca é nada mais do que um desabafo de Lars para a sua solidão. Interpretações divinas, personagens comoventes, Craig Gillespie nos entrega um filme para pensar, emocionar, divertir, e para, talvez, econtrarmos o nosso lado ideal como ser humano.
A Garota Ideal (Lars and the Real Girl) EUA, 2007 – 106 min – Drama Direção: Craig Gillespie Roteiro: Nancy Oliver Elenco: Ryan Gosling, Emily Mortimer, Paul Schneider, Patricia Clarkson, R.D. Reid, Kelli Garner Foda photo Foda.png