Bem e Mal. Herói e Vilão. Duas vertentes. Tudo muito simples, tudo muito bem dividido. Clichê perfeito. Um conceito que é respeitado atualmente por filmes para a família, novelas da TV, contos de fada, e assim por diante. Nas histórias em quadrinhos (HQs) isso é levado muito a sério, principalmente antes dos anos 80, onde as HQs eram vistas como algo infantil. Na verdade, era bem assim que eram tratadas, até por quem as produzia. Então a missão para todo esse cenário desabar e ser reconstruído de uma forma mais madura coube a duas obras primas: Batman – O Cavaleiro das Trevas e Watchmen (ganhando até um prêmio literário). Desconstruindo super heróis e encarando o leitor de uma forma mais adulta, essas duas obras mudaram o jeito de se ver uma história em quadrinhos. E no cinema aconteceu a mesma coisa.

 

Não sabia o que era Watchmen até ler uma notícia de sua adaptação para as telonas. O fato de deixarem claro que seria impossível de adaptá-la ao cinema me cativou, então me propus a ler. Quando terminei a leitura fiquei simplesmente abismado com a complexidade e a profundidade que aquela história tinha em seu conteúdo. Qual a imagem de super-herói que temos deste criancinha? Alguém sem defeitos; moral e ético; cheio de virtudes e sempre disposto a ajudar o próximo; com poderes únicos; um ser acima de qualquer ser humano. Bem Superman mesmo, algo perfeito. Mas não é o que irá encontrar em Watchmen. Preparem-se para ver heróis sem poderes, imorais, egoístas, sem valores éticos, anárquicos, fracos emocionalmente, mercenários, tudo que não se espera de um salvador da pátria. Principalmente quando não sabemos quem na verdade é o vilão. Pois cada um é um vilão de si mesmo. E o mal ás vezes pode trazer o bem.

 

 

Agora ver tudo isso no cinema e ainda acreditar que os produtores iriam comprar essa idéia é outra conversa. Num ramo do entretenimento que o mais importante do que a reflexão é o dinheiro. O nome do cara que conseguiu essa façanha é Zack Snyder (Madrugada dos Mortos, 300). Fielmente ao roteiro de Alam Moore e aos traços artísticos de Dave Gibbons, Snyder colocou na tela a HQ que muitos diziam ser infilmável. Quando estava no cinema, cada minuto que passava era como se fosse um sonho sendo realizado. Era como se quadro a quadro a história em quadrinhos fosse passada com toda a fidelidade possível na telona. É claro que houve algumas mudanças, não sejamos bobos ou ingênuos de acreditar que todo conteúdo de uma obra escrita vá para o filme, mesmo que ele tenha mais de três horas. Não é a toa que se chama adaptação. A violência hoje é muito mais evidente do que os anos 80. Então uma saída para deixar o público impressionado, foi aumentar as lutas que já são fortes na HQ para o filme. Porém os principais temas foram mantidos, ou seja, Watchmen também existe no cinema.

 

O filme mantém todo o clima da HQ. Queria destacar os créditos iniciais que, em minha opinião, foi a melhor apresentação para um filme que já vi na minha vida. Ao som de The Times They Are A-Changin do cantor Bob Dylan somos apresentados aos personagens em alguns momentos importantes para a trama. Porém só quem assistir vai ter a mesma sensação que tive. Principalmente se for fã. Não que quem não conheça Watchmen não irá gostar do filme, mas ele é especialmente feito para fãs. E por isso deve ter desagradado alguns fãs por mudar o final para um desfecho mais ousado. Eu penso que não mudando o significado do porquê de ter acontecido não tem problema de mudar como aconteceu. E mais uma vez Zack Snyder foi feliz na mudança.

 

 

Sobre os personagens todos os atores (desconhecidos do grande público) honraram a história. Billy Crudup (Dr. Manhattan), Jackie Earle Haley (Rorschach), Patrick Wilson (Coruja), Jeffrey Dean Morgan (Comediante), Malin Akerman (Espectral), Matthew Goode (Ozymandias) e Carla Gugino (a primeira Espectral). Desse grande time, se fosse premia-los por suas interpretações, os prêmios seriam para Jackie Earle Haley e Jeffrey Dean Morgan. Se escrevesse que eles simplesmente encarnaram seus personagens estaria mentindo. Não havia personagem, eles eram realmente Rorschach e Comediante. Ficava anestesiado cada vez que pareciam na trama. Os dois assustam e contagiam o público ao mesmo tempo. Nada como uma ótima piada.

 

Esqueça tudo que já ouviu falar sobre super heróis. Reveja seus conceitos, sua ética. Seus preconceitos. Watchmen é a bíblia dos quadrinhos. É um tapa na cara da sociedade americana. É um tiro na barriga de uma grávida. É um modo real de encarar a vida. E lembre-se: Os Watchmen estarão vigiando você, mas quem estará vigiando os Watchmen?

 

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Trailer: